Indígenas citadinos da Região Metropolitana de Belo Horizonte

Por Bartolomeu C. Santos – Pankararu

Por duas décadas convivi entre meus parentes Pankararu no Sertão pernambucano participando das atividades rituais e de projetos que envolveram a comunidade. No entanto, em 2011, quando fui aprovado no Processo Seletivo da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG/Funai, deixei minha aldeia para cursar Ciências Sociais e residir na cidade de Belo Horizonte durante a graduação.

Meu primeiro ano na academia e na capital mineira foi de ajustes e curiosidades por suas intensas rotinas, e nelas as provocações que se amontoavam diariamente. Aquele período carregado de novas experiências me colocou uma grande diversidade de desafios e de informações que pouco conhecia. O maior desafio, até então, foi me ajustar a um ambiente de sistemas sociais e políticos extremamente complexos e divergentes daqueles que aprendemos em nossas aldeias. Já no final daquele ano me senti, em parte, adaptado aos “costumes” dos ambientes acadêmico e citadino.

O projeto Índios na Cidade

Em 2012, meu segundo ano de faculdade, fui selecionado para fazer parte da equipe do projeto de extensão Índios na Cidade, ficando como bolsista até o final do ano de 2013. Nos dois anos de pesquisa, descobri que o tema Índios na Cidade é controverso, instigante e de intensa discussão por envolver princípios fundamentais (diferenciados), entre eles, moradia, saúde e educação.

Durante os meses iniciais de pesquisa, participamos de encontros com os indígenas citadinos em diferentes espaços culturais na Região Metropolitana de Belo Horizonte – RMBH. Nos encontros, conhecemos parte daquela população e apreciamos suas agendas e trajetórias políticas. Também, muito ouvimos de suas extensas narrativas de vida e de luta. Nos mesmos espaços ouvimos representantes de instituições (municipais e estaduais) dizendo que estavam felizes de “conhecê-los”, de participar de momentos como aquele e poder escutar suas trajetórias. Como se fossem aqueles encontros o primeiro contato, as primeiras informações sobre os indígenas citadinos. Para a maioria dos participantes, foi uma surpresa saber do tamanho e da distribuição da população indígena citadina nos municípios metropolitanos. Mas deve ter sido uma surpresa maior para os representantes de instituições, pois é sempre inesperada a presença indígena em contextos urbanos.

As falas dos indígenas citadinos e dos representantes tornaram-se perturbadoras por questionarem diversos temas. Identidade e reconhecimento étnico, contudo, foram ressaltadas na maioria das falas. Um outro ponto considerável naqueles eventos foi a necessidade de “materializar” as minorias étnicas em números para serem “visíveis”. Após a apresentação da população indígena citadina em números, ficou perceptível a presença deles na RMBH, não tendo mais como ignorá-los.

Distribuição espacial dos índios na RMBH. Fonte: http://indigenas.ibge.gov.br/mapas-indigenas-2

O projeto Índios na Cidade, até então coordenado pelos professores Luís Roberto de Paula e Ana Gomes em parceria com diversas instituições,[1] teve em vista as diferentes questões enfrentadas pela população indígena citadina. Sendo assim, após uma análise preliminar da situação dos grupos indígenas na RMBH, realizada pelo CEDEFES, o projeto tomou a iniciativa de aplicar e desenvolver atividades. Na análise, pontuou-se três problemas macros vivenciados pelos indígenas citadinos. São eles: “1) pouco acesso aos direitos básicos; 2) índios pouco entrosados nas atividades políticas e sociais e 3) falta de informação sobre seus direitos”.

Com o objetivo de subsidiar os problemas apontados pela análise do CEDEFES, entre outras, a equipe do projeto Índios na Cidade (UFMG e GVC) elaborou três atividades. São elas: 1) criar um Centro de Serviços e Referência para a População Indígena da Região Metropolitana de Belo Horizonte (principalmente virtual); 2) ofertar curso de capacitação voltado aos indígenas citadinos e 3) organizar diagnósticos, apresentar resumos na Semana de Conhecimento e Cultura da UFMG e em centros culturais para divulgação do projeto e, sobretudo, da presença indígena citadina. Todas as atividades foram desenvolvidas em parceria com as lideranças indígenas da RMBH, com o objetivo de ampliar e ou reformular as atividades e a metodologia da aplicação dos questionários entre seus grupos.

Com o material de pesquisa organizado fomos para o campo. E lá, em campo, fizemos a entrega do perfil sociodemográfico para alguns indígenas. Também iniciamos as entrevistas piloto com alguns parentes que participavam dos encontros nos centros culturais da RMBH. As entrevistas iniciais ajudaram a equipe a reformular e ampliar questões que descrevessem informações quantitativas e qualitativas, a fim de ilustrar parte de suas trajetórias e de seus protagonismos na RMBH.

A distribuição do diagnóstico preliminar elaborado pela equipe do projeto auxiliou na contextualização dos dados sobre a população indígena de Minas Gerais e na RMBH ao resumir e apresentar as diferentes situações dos parentes citadinos, tais como moradia, faixa etária, trabalhos formais e informais, renda, escolaridade, acesso a saúde, entre outras informações substanciais que descrevem parte da realidade indígena na capital mineira.

Indígenas em RMBH

Em Minas Gerais, habitam 12 povos indígenas distribuídos entre as etnias Maxakali, Xacriabá, Krenak, Kaxixó, Aranã, Pataxó, Pataxó Hã-hã-hãe, Purí, Mucuriñ, Araxá, Xucurú- Karirí e Pankararu. Juntos, somam uma população de mais de 30 mil indígenas, vivendo em diferentes regiões do estado. E na capital mineira (Belo Horizonte) somam mais de 3 mil indígenas citadinos, assim como nos municípios metropolitanos: Contagem, Ribeirão da Neves e Betim somam quase 2 mil indígenas autodeclarados no Censo Demográfico Populacional do IBGE de 2010.

Entre os parentes citadinos, foi registrado que muitas famílias indígenas residem na RMBH há mais 4 décadas e nem todas participaram de entrevistas do IBGE. Essa informação sugere que a população indígena da RMBH pode ser bem maior do que a declarada.

Com a publicação do perfil sociodemográfico dos autodeclarados indígenas residentes na Região Metropolitana de Belo Horizonte, resultante da primeira etapa de pesquisa, os indígenas tornaram-se “visíveis”. A divulgação das informações deixou muitos indígenas animados por saber que existem outros parentes, fazendo-os se questionarem por não terem se envolvido no movimento político indígena e nas associações indígenas com maior empenho.

Ao apresentar o perfil sociodemográfico junto às lideranças indígenas, o projeto Índios na Cidade pôde estabelecer diferentes canais de comunicação com as instituições municipais e estaduais. Outro passo foi firmar um contato com a diretoria regional da Funai responsável pelos indígenas (aldeados) de Minas Gerais e do Espírito Santo, sediada em Governador Valadares, MG. Pode-se dizer que o primeiro resultado do projeto foi positivo por apresentar e estabelecer diálogos e parecerias, e mesmo ampliar o reconhecimento étnico na busca por direitos e assistências básicas garantidas por lei para os grupos indígenas citadinos da RMBH.

Outra iniciativa no final da execução do projeto foi dos indígenas se organizaram e desenvolveram o Movimento de Lideranças Indígenas da RMBH, utilizando como instrumento de legitimação o perfil sociodemográfico, o qual apresenta sua população e resume a situação em que se encontravam até aquele momento.

Nos dois anos de projeto, ampliamos em diferentes espaços (físicos e virtuais) a presença da população indígena citadina ao promover eventos e debates, abrindo uma possibilidade dos indígenas da RMBH serem protagonistas, de terem uma agenda de debates com as instituições municipais e estaduais.

Um dos objetivos foi cercear o cenário de completa ignorância a respeito das populações indígenas em grandes centros urbanos. Talvez seja pela imagem desenhada sobre os indígenas, de que devam permanecer em regiões utópicas, que sua presença curiosamente tenha se tornado um estigma social, atraindo questionamentos mais negativos que positivos sobre a posição e o local que o indígena citadino deve ocupar.

Bartolomeu Pankararu é pesquisador indígena e discente de doutorado em Antropologia Social – Museu Nacional/UFRJ. Este artigo descreve parte de sua trajetória como indígena e das múltiplas extensões da presença e da vivência indígena citadina na RMBH sob uma ótica do projeto de extensão Índios na Cidade UFMG/Gruppo di Volontariato Civile. 


[1] Gruppo di Volontariato Civile (GVC), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com as entidades Associação dos Povos Indígenas de Belo Horizonte (APIBH) e Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva (CEDEFES).

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